Uso prolongado de remédios da classe do Omeprazol pode aumentar a chance de câncer de estômago, de acordo com estudo divulgado nesta quarta-feira (1º) (Foto: Fabio Hofnik/Flicrkr/via UCL)

Um estudo liderado pela Universidade de Hong Kong, em parceria com o University College London, relaciona o uso prolongado de remédios inibidores da bomba de prótons (IBPs) – classe de medicamentos do Omeprazol, Lansoprazol, Pantoprazol, Rabeprazol, Esomeprazol e Dexlansoprazol – a um aumento no risco de desenvolver câncer no estômago.

A pesquisa foi publicada pela revista científica “Gut” nesta terça-feira (31), mas gerou uma série de dúvidas. Especialistas ouvidos pelo G1 explicam que, pela metodologia usada, não se trata de uma comprovação de que os IBPs causem câncer, mas os resultados podem servir de alerta para o uso crônico do remédio.

Veja quatro perguntas sobre os IBPs e o estudo divulgado:

1. Para que servem esses remédios?

Eles são usados para diminuir a quantidade de ácido produzido pelo estômago e para tratar gastrite, refluxo e úlceras.

2. Como foi feita a pesquisa?

Os cientistas analisaram 63.387 casos de pacientes de Hong Kong — destes, 153 tiveram câncer de estômago (0,24%). O acompanhamento ocorreu entre os anos de 2003 e 2012. Outros estudos já haviam apontado uma correlação (leia abaixo) entre IBPs e câncer de estômago, mas nenhum havia excluído a influência da bactéria Helicobacter pylori, que também é uma das possíveis causas do câncer de estômago.

Neste estudo recente, os pesquisadores queriam eliminar a influência da bactéria nos resultados. Os autores citam que a erradicação da Helicobacter pylori mostrou uma redução no risco de câncer de estômago de até 47%, mas que uma boa parte dos indivíduos continuava a apresentar a doença.

Eles selecionaram apenas pacientes já tratados com o antibiótico claritromicina e que estavam sem a bactéria no aparelho digestivo. Junto com o antibiótico, eles já ingeriam os IBPs. Esse grupo foi comparado com pessoas que tomavam bloqueadores de histamina-2 (H2RA), que causa um efeito similar ao omeprazol.

De acordo com os resultados do estudo, as pessoas que continuaram com o uso a longo prazo do medicamentos IBPs (mais de um ano) pelo menos uma vez por semana apresentaram uma alta de 2,4 vezes no risco de ter câncer de estômago. Aqueles que consumiram diariamente os remédios apresentaram um aumento de 4,55 nas chances. Os usuários dos bloqueadores de histamina-2 (H2RA) não apresentaram aumento do risco para a doença.

“Há algumas evidências de uma eventual ligação dos remédios com o aumento da chance de desenvover câncer de estômago. Esse estudo não é uma comprovação. É um alerta aos pacientes que usam [esses medicamentos] cronicamente para fazer uma avaliação do custo-benefício e trocar por uma outra saída sem tantas chances de efeito colateral”, explicou o oncologista René Claudio Gansl, do Hospital Israelita Albert Einstein.

3. Outras pesquisas já haviam apontado esta relação?

Sim. Uma correlação entre o uso dos IBPs e esse tipo de câncer já havia sido identificada em uma pesquisa britânica de 2011, que usou registros de saúde da Dinamarca entre os anos de 1990 e 2003.

Um outro estudo dos Estados Unidos, de 2016, trouxe evidências de que o uso de Pantoprazol e outros IBPs pode aumentar as chances de câncer.

No entanto, um quarto estudo recente, da FDA, órgão similar à Anvisa nos Estados Unidos, trouxe evidências contrárias. “Não foi observado o aumento do risco de câncer gástrico com exposição prolongada aos IBPs”, concluiu. O médico responsável, em entrevista ao site especializado “Medscape”, diz que o estudo de Hong Kong tem um “viés geográfico” por apresentar “riscos específicos para câncer de estômago que são bem reconhecidos em pacientes asiáticos”.

4. O que o estudo de Hong Kong realmente comprovou?

Pacientes asiáticos que trataram a bactéria Helicobacter pylori e que continuam a tomar remédios da classe do Omeprazol podem apresentaram maior incidência de câncer de estômago.

Como a relação causa/efeito não é comprovada no artigo, não é possível mostrar a relação direta do uso do remédio com o desenvolvimento do câncer. A pesquisa mostra apenas uma correlação estatística.

Gansl aponta que não é possível falar em comprovação porque outros fatores de risco para o câncer de estômago não foram excluídos da pesquisa. São eles: histórico familiar, tabagismo, alcoolismo, obesidade, entre outros.

 

“Esse é mais um fator relevante que a gente pode considerar. Isso não quer dizer que as pessoas não podem usar os inibidores. Primeiro, a gente tem que ver quais são as indicações precisas para isso. Lembrando que há uma relação de tempo e dose. Não é uma pessoa que toma uma vez que pode desenvolver um tumor”, explica Felipe José Fernández Coimbra, oncologista do A.C Camargo.

Um comunicado sobre o estudo de Hong Kong publicado nesta quarta-feira pelo sistema de saúde público do Reino Unido, o NHS, aponta: “Devido à metodologia do estudo, não podemos dizer que os IBPs foram a causa do aumento do risco de câncer de estômago. Pode ter sido causado por outros fatores”.

E complementa: “É importante colocar os resultados em proporção. O uso prolongado de IBPs foi ligado a cerca de 4 casos a mais de câncer por 10 mil pessoas por ano”.

Fonte: G1

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