Há 1.548 dias livre do crack, Adeílson Mota ganha a vida fabricando e vendendo móveis. Agenda cheia até fevereiro de 2018.

 

As mãos rápidas de Adeílson Mota de Carvalho lapidando a madeira dão forma a armários, guarda-roupas e camas. O empresário de 41 anos não tem tempo a perder. Com a agenda lotada até fevereiro de 2018, corre de um lado para o outro a fim de conseguir entregar no prazo todas as encomendas. Orgulhoso, garante “fazer serviço de primeira” e desafia a reportagem a ligar para todos os seus clientes. “Eles podem atestar a qualidade do meu trabalho”.

O grande volume de pedidos por móveis fez Adeílson deixar o aluguel. Há cinco meses, comprou a casa própria, em São Sebastião, e, num espaço de 20 metros quadrados, montou sua marcenaria. Seria apenas mais uma história de sucesso impulsionada pela força do trabalho, mas um ingrediente torna a conquista pessoal de Adeílson digna dos melhores filmes.

Há pouco mais de quatro anos, o maranhense de Carolina vivia maltrapilho perambulando pelo Plano Piloto. Esquelético, pesava menos de 60 quilos – hoje tem 90. A alimentação não era prioridade, pois o dinheiro que conseguia catando latinha e vigiando carros era investido em pedras de crack.

 

Na rua, flertou com a morte várias vezes. A consciência pedia liberdade, mas o corpo estava preso ao vício na pedra. A sorte, no entanto, resolveu cruzar o caminho de Adeílson. E ela veio na figura de Felipe Dourado de Paiva, um estudante universitário de classe média alta, morador do Guará, que estava desaparecido havia 13 dias. Desesperados, os pais iniciaram uma campanha para localizá-lo.

Por volta das 16h do dia 22 de agosto de 2013, Adeílson caminhava próximo à antiga Rodoferroviária de Brasília, quando viu o rapaz dentro de uma caixa de papelão. Mesmo sob efeito de droga, Adeílson reconheceu o jovem, pois havia visto um cartaz colado em um poste com a foto dele.

Antes de acionar a polícia, o então morador de rua e usuário de crack tranquilizou o rapaz. Para os parentes de Felipe, era o fim de uma agonia; para Adeílson, o começo de uma nova vida.

E lá se vão 1.548 dias limpos
Os familiares de Felipe ofereceram R$ 5 mil em recompensa, que Adeílson trocou por uma transformação. No lugar do dinheiro, pediu ajuda para deixar o vício. Com a orientação dos parentes do universitário, foi internado na casa terapêutica Salve a Si, situada na Cidade Ocidental. O tratamento não apenas o fez largar o crack, mas também o inspirou a resgatar o dom da marcenaria aprendido na infância. E lá se vão 1.548 dias “limpos”.

Para ele, o tempo transcorrido representa renovação e oportunidade. “A minha sensação é como se tudo o que fiz antes de 2013 tivesse sido apagado do meu livro pessoal. As páginas ficaram em branco. O meu melhor momento é agora. O dom da marcenaria me salvou. A minha história começou a ser escrita novamente”, sentencia, emocionado, mas com firmeza.

O tempo de sem-teto ficou definitivamente no passado. De lá para cá, Adeílson tem investido na carreira e se desdobrado para cumprir as ordens de serviço. São 20 trabalhos que devem ser entregues até fevereiro de 2018. “Eu não tinha como imaginar toda essa mudança. Tudo aqui é fruto do meu suor. Eu comprei as máquinas, mandei construir a oficina e tenho funcionários para me ajudar”, comemora.

A marcenaria lhe rendeu não só a oportunidade de ter o imóvel próprio. Os pés, antes castigados, calçam agora sapatos e tênis da moda. A bonança no trabalho lhe proporcionou realizar o sonho de infância de ter veículos potentes. Na garagem, estão guardados uma caminhonete Hillux e uma moto Honda CBR Fireblade.

Mas as mudanças na vida de Didi – como é carinhosamente chamado por amigos – não se resumem ao incremento na conta bancária. O amor bateu à porta do empresário. Quando já estava longe das drogas, ele retomou contato com a prima Teresa Mota Barros, 33, que morava em Estreito no Maranhão (MA) e, em junho de 2014, os dois iniciaram um namoro a distância. “Com três meses de relacionamento, nos casamos e ele me trouxe para Brasília. O Adeílson é o homem da minha vida. Eu tenho muito orgulho da história de superação dele”, diz a apaixonada Teresa.

Se depender do casal, em breve um dos quartos vazios do imóvel comprado recentemente passará a ser ocupado.

“Para a vida ficar completa, a próxima meta é aumentar a família. Desejo ter um filho com a minha esposa. Nossos planos são para o ano que vem.” Adeílson Mota de Carvalho

Fonte: Metrópoles

 

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